A saga da camisa 10 no dia da Páscoa*
A
Seleção Brasileira de 70 é a melhor de todos os tempos segundo pesquisa
feita entre especialistas pela revista inglesa World Soccer, em 2007.
A Fifa também pensa assim.
Eu não, o que não tem a menor importância, mas cabe explicar.
Considero
a Seleção de 1958 ainda superior pela simples razão de ter Pelé e
Garrincha juntos, além de Didi, eleito o melhor jogador da Copa do Mundo
na Suécia, a primeira da cinco vencidas pelos brasileiros.
Os três melhores jogadores do mundo num determinado momento da história do futebol juntos, no mesmo time!
Nunca houve nada igual.
Mas
é fato que o time de 1970, o que ganhou a terceira Copa do Mundo para o
Brasil, não só é muito mais documentado como foi vista pelo planeta, na
primeira Copa transmitida pela TV para todos os continentes.
Um
time que atropelou os seis adversários que enfrentou em gramados
mexicanos, ganhou de todos eles, um a um: Tchecoslováquia (4 a 1);
Inglaterra (1 a 0); Romênia (3 a 1); Peru (4 a 2); Uruguai (3 a 1) e,
finalmente, a Itália, por 4 a 1.
Era mesmo um time extraordinário.
A começar que, na defesa, tinha um lateral-direito fabuloso, dos melhores que a Terra já viu, Carlos Alberto Torres.
Do
meio do campo para frente, então, tinha cinco fenômenos, quatro gênios e
um furacão: Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, e Jairzinho.
Para
não falar de Paulo César Caju, outro fino maestro, que era reserva,
embora tenha jogado no lugar de Gérson, machucado, na marcante vitória
contra a Inglaterra, a campeã de quatro anos antes.
Cinco camisas 10, seis com PC Caju, embora não necessariamente usassem a camisa 10 ou nem sempre a tenham usado.
Pelé
e Rivellino, sim, sempre levaram a 10 nas costas, mas Gérson foi 8,
Tostão nunca foi 10 no Cruzeiro, porque o dono era outro gênio chamado
Dirceu Lopes, que nunca teve chance no escrete exatamente porque havia
uma inflação de talentos no meio de campo brasileiro à época em que ele
jogou — mesma situação de outro armador de raro talento, Ademir da Guia,
do Palmeiras, filho do Divino Domingos da Guia, um dos melhores
zagueiros da história do futebol brasileiro.
Pelé era 10, mas não era, quer dizer era muito mais que 10, era 20, 30, 1000.
Não era mesmo o 10 clássico, o pensador, embora fosse também.
O
Rei era arco e flecha ao mesmo tempo, quem mais perto chegou da
perfeição, se é que não foi a própria perfeição, algo de que muitos
desconfiam, inclusive eu.
Gérson, por exemplo, era o típico
pensador, o cara que pisava na bola e apontava para o que iria fazer, o
cara que fumava no intervalo dos jogos, meião abaixado no tornozelo,
cabeça curvada entre as pernas. O cara que dizia que ele não precisava
correr, a bola é que precisava. E que fazia a bola correr como poucos
fizeram, o cara que fez o segundo gol na final contra a Itália, o 2 a 1
que terminaria em 4 a 1, primeiro gol de Pelé, o segundo dele, o
terceiro de Jairzinho e o quarto do capitão Carlos Alberto Torres.
Gérson, o “Canhotinha de Ouro”, foi 8 muitas vezes, foi 10 no São Paulo, mas era, de fato, um 10, como Zinedine Zidane.
Já
Rivellino, o melhor jogador da centenária história do Corinthians,
sempre foi o 10 do alvinegro, mas era um 10 mais à Maradona que à moda
Iniesta, pensador e explosivo, reflexivo e bombástico, simplesmente
espetacular.
Não por acaso, ídolo de Dom Diego Armando Maradona.
Rivellino foi apelidado de a “Patada Atômica” na Copa de 70, tal a potência de sua esquerda.
Tinha
ainda Jairzinho, o “Furacão da Copa”, em 1970 só flecha, autor de gols
nos seis jogos, ele que era ponta de lança no Botafogo, virou
ponta-direita na Seleção porque o titular, Rogério, também do Botafogo,
se machucou, para sorte de Jairzinho, para sorte do Brasil, para sorte
de todos nós, amantes do futebol.
Jairzinho só veio a ser 10 no
Cruzeiro, seis anos depois do tricampeonato no México, e um 10
exuberante, surpreendente até em sua capacidade de servir com a mesma
excelência que usufruiu quando era servido por Gérson, por Pelé, por
Rivellino e por Tostão, o “Mineirinho de Ouro”.
Tostão.
Aqui, um caso à parte.
Tostão
era o 10 sem usar a 10, porque o 10 não é um número, mas uma posição,
mais, aliás, que uma posição, um conceito, uma filosofia de jogo, do
jogo de futebol.
Tostão encarnou como poucos tal filosofia e o fez à sua imagem e semelhança, de maneira minimalista.
Por que dar um segundo toque na bola se você pode resolver no primeiro? Por que bater forte nela se você pode tocá-la com jeito?
Assim era Tostão que, hoje, escreve como jogava, magistralmente.
Eu, que ouso discordar que um time com tais gênios tenha sido o melhor de todos os tempos, jamais fui 10, apenas zero.
À esquerda, ainda por cima.
No que, ao menos, estou ao lado destes três magníficos canhotas de ouro, Tostão, Gérson e Rivellino.
Porque Jairzinho é destro e Pelé também. Quer dizer, o Rei é ambidestro.
Ou melhor ELE é uma centopéia, e cada pé sempre foi melhor que o outro.
Do: blog do Juca Kfouri
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