domingo, 29 de janeiro de 2017

Marisa Letícia

MARISA LETÍCIA


Em pernoite para os poemas


E eles não vêm,  indiferentes


Ao que em mim clama e reclama. 


Como falar da menina da roça, 


Entre manhãs e margaridas, 


Bebendo o mundo anunciado? 


E dizer da infância abreviada, 


Babá de três crianças,  pajem


Se criança ainda,  brincando


De se fingir adulta e trabalhar?


Aos treze, mal menstruando


Ainda projeto de mulher,


Operária embrulhando bombons,


Na linha de produção do capital.


Logo inspetora de alunos, 


Pastora de irrequietos


Apascentando a inquietude


E orientando a disciplina.


E explodiu mulher, hormônios


E umidade exigindo caminhos, 


E se descobriu frutificada em si,


Recheada de nova vida vindo, 


E constituiu família e futuro,


Sem saber que balas rondavam,


Incubando mais uma viuvez.


Agora esperaria sozinha


O que pensaria criar sozinha, 


Até a reunião no sindicato,


O anjo rouco e barbudo,


As mulheres divinizam paixões,


Viúva, viúvo também, juntos,


Casamento de novo, e o povo.


E vieram garras e peçonha,


As algemas e o escuro porão,


Marido preso, incomunicável,


Exigindo a aposentadoria


Da fragilidade, do estar quieta


E veio a passeata das mulheres,


Ela na frente, soltem meu marido,


Entre tanques e cavalaria.


Logo o sindicato era pequeno


E São Paulo era pouco,


Era preciso abarcar tudo


E arrebanhar a todos,


E a gravidez de um novo partido,


Com as mãos que foram da roça,


Acariciaram crianças,


Embrulharam bombons


Tecendo a sua primeira bandeira,


Vermelha, de sangue e coração,


Com estrela maga no centro,


Apontando novo caminho,


Orientando a multidão.


E a estrela tornou-se o marido, 


E o marido a estrela, brilhando


Diante dela discreta, acompanhando.


E veio a rampa, o trono, as comendas, 


O título de primeira dama


Ornamentando o sorriso doce,


Quase envergonhado, discreto,


E as calúnias, as infâmias, injúrias


Atropelando a dignidade e a alegria


Pondo por terra a possibilidade


De ser feliz e viver com poesia.


Açoitaram-na com a chibata verbal,


Os chicotes digitados


Em tortura televisiva,


Radiofônica, digital,


Imprimindo um acidente vascular


Mais que cerebral, na frágil alma


De corpo agora em coma,


lutando.


Francisco Costa
Rio, 28/01/2017.

compartilhado do facebook - 

Nenhum comentário:

Postar um comentário